Poema: Presença
…Presença…
“…
É preciso que a saudade desenhe tuas linhas perfeitas,
teu perfil exato e que, apenas, levemente, o vento
das horas ponha um frêmito em teus cabelos…É preciso que a tua ausência trescale
sutilmente, no ar, a trevo machucado,
as folhas de alecrim desde há muito guardadas
não se sabe por quem nalgum móvel antigo…
Mas é preciso, também, que seja como abrir uma janelae respirar-te, azul e luminosa, no ar.
É preciso a saudade para eu sentir
como sinto – em mim – a presença misteriosa da vida…Mas quando surges és tão outra e múltipla e imprevista
que nunca te pareces com o teu retrato…
E eu tenho de fechar meus olhos para ver-te.…”
por Mário Quintana


Greve: “Não. Hoje, nada de ar. Nem uma gota. Hoje, viver sem ar. Oxigênio mata. Enferruja as células. Nada, nada, nada de ar. Nem uma gota. Morrer sem ar? E quem morre por falta de ar? Morre-se por falta de amor, isso sim. Falta de ar não mata ninguém. Não. Nada de ar. Nada. Melhor deixar aqui dentro só o que já está aqui dentro. Perigoso esse negócio de respirar. Cada inspirada um putilhão de bactérias, medos e vírus. Quem sabe o que mais pode vir? Cada expirada um putilhão de partículas de nós espalhadas por aí. E onde vamos parar? Nada disso. Hoje, não inspiro. Não expiro. Não inspiro. Não expiro. Hoje, fico vivo e não respiro. Oxigênio mata. Falta de ar não mata. Oco na barriga mata. Falta de ar não mata. Não. Nem uma gota. Nada. Hoje, não. Nada de ar. Melhor: ar, agora, só quando você voltar. Nem hoje nem dia nenhum enquanto você insistir em deixar presente essa sua merda de ausência. Não respiro. Não quero mais ar. Nem uma gota, até você voltar. Porque falta de ar não mata. O que mata é falta de você. O que mata é esse vazio que você deixou no ar. Nada. Hoje, nada de ar. Nem uma gota. Nada. Nem hoje nem nunca. Só quando você voltar.” (André Gonçalves, in: Coisas de amor largadas na noite)